quinta-feira, 29 de agosto de 2019

O Que Penso Sobre Ontem

Meu igual tão diferente
Animal inconsequente
Diz que sofre pela tarde
Sob a luz da lua mente
Sofro tanto de pesar
Sofro só de pensar
Depois penso em sofrer
Penso que nunca mais
Pensarei em te querer
Minha carne delinquente
Penso em outro remetente
A que dizia sorridente
Somos um só ascendente
Que saudade desse tempo
Tempos de viver a consequência
Nunca sentir tanto a tua ausência
Tudo foi de tão efêmero
E hoje penso nela com frequência
(MACHADO. Marco)

domingo, 25 de agosto de 2019

Não Tenho Mais Idade

Igualdade como imbecilidade
Digo logo que não tenho mais idade
Volto então à liberdade
Penso nela com saudade
Jovens com tendência à lealdade
Do silencio a obscenidade
Os inimigos de verdade
Destilando sua maldade
Falta alguma faculdade
Não significam a amizade
A lei provida por vontade
Mata a gente toda tarde
Paciencia é raridade
Ódio sensatez e até virilidade
Meu cansaço não é novidade
E em cada nova atrocidade
Digo logo que não tenho mais idade.
(MACHADO. Marco)

sexta-feira, 23 de agosto de 2019

Se o Mundo Pudesse Voltar a Ser Como Antes

"SE O MUNDO PUDESSE voltar a ser como era, o que falaria?", - nada!, nem o saberia como encara-lo. Senti-me-ia um telespectador que assiste um filme a quem tem saudades eternas, mas que não participa da finitude de seu enredo, não como da primeira vez. Se o mundo pudesse voltar a ser como era, só ele poderia realizar tal façanha, eu não, não sou capaz de ser outro que já fui ou que pretendia ser. Ficarei aqui imoveu assistindo aos instantes que talvez até tenha vivido em outras vidas. Serei lagarta a quem fazem acreditar que será borboleta, ou serei borboleta a quem de lagarta não ousa, a quem lagarta não passa de um sonho feio e incomodo. Não... Estou bem aqui. Se o mundo pudesse voltar a ser como era, que pudesse para outro, para mim não! chega desses joguinhos de se pudesses. Deixe-me enfrentar as coisas como elas são, que se movimentam a torto que é direito. Gosto de fazer parte dos seus encantos e de ser perene para quem os outros chamam de eterno o contrario estupido. Sou eu quem está aqui neste instante tecendo estas palavras frágeis que te atingem o coração como que flechas envenenadas de devir. Sim, deixa-as no peito e não sonhas mais com os sonhos dos que cobiçam o passado entre artimanhas e ebriedades. Termine este verso e espreguice-se para trás da cadeira e veja a vida que se passa, e eu... que me vou.
(CAMPOS. Thiago)

terça-feira, 20 de agosto de 2019

Fundo Prévio

Eu era um tanto distinto
Agora um tanto distante
Eu já estive faminto
Também estive falante
Andei na beira do mar
Dias de sol e emoção
Hoje nem mesa de bar
Só quarto e escuridão
Já planejei o futuro
Já inventei um amor
Já evitei ser tão duro
Já imaginei teu calor
Agora não faço mais planos
Não faço mais prece
Não causo mais danos
A quem não merece
Agora estou resoluto
Tomei minha decisão
Você prepara o seu luto
E eu minha rendição
(MACHADO. Marco)

Alguém Importante

Eu não sou parte de nada
Não faço parte de nada
Não entro em grupo pra nada
Não sou alguém importante
Eu não sirvo pra nada
Também não presto pra nada
Eu não sou útil pra nada
Também não tenho um amante
Minhas escolhas não me levam a nada
Eu não mando em nada
Eu não sou chefe de nada
Sou errado e errante
Minhas palavras não servem pra nada
Ninguém as usa pra nada
Não são motivo de nada
Imagine o quanto é frustrante
Mas eu também não me importo com nada
Não tenho saco pra nada
Não me interesso por nada
Um clichê desinteressante
Então sabendo que sou parte do nada
Que eu volte pro nada
Pois pelo menos no nada
Eu sou alguém importante
(MACHADO. Marco)

segunda-feira, 19 de agosto de 2019

Lá e aqui

Onde me vejo não pertenço
Falta de amor, o corpo tenso
De onde eu vim é diferente
Não faço parte dessa gente
Ainda que eu tente
Não sera suficiente
De onde eu vim não sou de lá
Por lá não posso me encontrar
Lá é tão longe quanto aqui
De onde eu tive de partir
Idas e vindas sufocantes
Partidas e chegadas consternantes
Aqui não encontro diamantes
Lá não é mais como antes
E eu que fui e permaneço
Sempre um estranho endereço
Perdendo o caminho
Voltando sozinho
Não faço parte
Não me descarte
Procuro outro pra ir
E vou sem me despedir.
(MACHADO. Marco)

sábado, 17 de agosto de 2019

Parapeito

"EXUBERANTE"... Essa era a única palavra que, similar à estalos, fazia pequenos barulhos pôr toda a minha cabeça. Do parapeito, no quarto andar, só podia comtemplar aquela visão deslumbrante do pôr-do-sol. Aos poucos os contornos da serra, ao longe, ganhavam destaque, tornando-se de uma lembrança esvaiecida, à uma impotente e colossal montanha. O azul celeste e laranja incendeiam completamente o céu, neste momento vejo passáros cruzando a tela de um lado ao outro. Alguns carros já passam de faroís acesos, e o barulho pouco a pouco se mistura aos meus pensamentos. As poucas luzes que se estendem no horizonte, como um velho tapete, vão-se iluminando uma a uma, essa imagem me faz lembrar uma orquesta e até penso ouvir umas poucas notas. Por fim, acendo um cigarro e me despeço daquela visão magnífica, mas não antes de pronunciar uma última vez: "Exuberante...".
(CAMPOS. Thiago)

sábado, 10 de agosto de 2019

Contrato

Simples, antigo
Piscina rasa
Copo meio cheio
Meio vazio
Tive tudo no dia certo
Um segundo e eu ja havia perdido
Eu poderia até chorar
Mas de que adiantaria?
Eu ainda sou indiscutivelmente eu mesmo
Sem talento para deixar o rio me refletir
Inocente e incrédulo
Me formei na tirania do mais fraco
Ao menos isso aprendi
Sei me contentar com o não
E não posso pedir nada mais pacífico
Eu sou apenas o resto do que sobrou
Mas ja fiz algumas boas atuações
Não vou sangrar teus lençóis
Eu sei que você não esta lá
Minhas aspirações são exatamente
O valor de uma moeda em desuso.
(MACHADO. Marco)

Onde foi João?

Onde foi João?
Onde foi que você perdeu sua importância?
Ninguém pareceu se importar muito quando você se enforcou na capa do violão, antes mesmo de tomar o último banho.
Onde foi João?
Tinha gente dormindo na sala, com a televisão ligada na cena triste da novela. Ninguém reparou a cena que você fazia entre as quatro paredes do teu quarto, eles não gostavam de passar mais tempo que o necessário naquele quarto que cheirava a comida velha, mofo e água salgada.
Nesse quarto agora a tua mãe passa a maior parte do tempo João, deitada na posição fetal, abraçando uma camisa tua e encharcando teu travesseiro
Ela que encontrou teu corpo sabia João?
Pendurado pelo pescoço na viga do teto...
Um teto sem forro e um corpo sem vida.
Teu pai anda olhando os cantos da casa agora, parece estar sempre te procurando, talvez pensando que você volta depois de mais esse showzinho do fim de semana, mas você nunca mais chega
Onde foi João?

quarta-feira, 7 de agosto de 2019

Se foi um dia

Quando eu sentia deslizar sobre o meu corpo
Aquele toque afável
Aquela voz tão inflamável
Aquele limbo de loucura inenarrável
Nada mais no mundo me faltava
Tudo que um dia eu quis em mim se projetava
Toda dor de mim desvencilhava
E o amor que havia em mim não se calculava
Eu fui teu em objeto
Vontade de consumo
Só não alcancei teu eu direto
Tua alma suprassumo
Mais um pouco do que tu faria
Certamente me enlouqueceria
Como fiz tudo de novo
Por me dizer eu novamemte viveria
(MACHADO. Marco)

sábado, 3 de agosto de 2019

Embarcação dos Amantes Solitários

Essa dor que me atravessa
E me faz querer chorar
Esse amor que não tem pressa
Satisfaço-me em te olhar
Minha respiração ofegante
No meu peito retumbante
Tenho sonhos mais que lúcidos
Onde sou o seu amante
Minha mão úmida fechada
Indignamente calejada
Faz o teu sorriso mais bonito
Ser meu ponto de largada
Cenas de fundo verde
Se misturam com a verdade
O teu rosto na parede
Mata a minha liberdade
Ao som dos tiros no horizonte
Tens o amor de minha fonte
Abala em mim a bala ao peito
Pois não queres que eu te conte
Morri de esperanças nesse front
Agora junto dos desafortunados
Embarcados no suplício de Caronte.
(MACHADO. Marco)