segunda-feira, 11 de abril de 2022

Você me perdeu

Você me perdeu quando aceitou me matar
Me perdeu no ato de se bloquear
Você me perdeu quando não pensou antes de falar
Voce me perdeu quando tentou me ensinar a não seguir minha natureza
Você me perdeu quando me tratou com frieza
Você me perdeu quando não levantou sua voz pra me defender
Você me perdeu quando confraternizou com quem levantou a voz pra me atacar
Você me perdeu quando assistiu eu ser massacrado sem saber o motivo
Você me perdeu no instante em que sorriu da minha frase de dor
Você me perdeu quando me deixou no escuro do mundo
Mesmo que você não pudesse trazer a luz, você me perdeu quando resolveu que não me ajudaria a achar
Você me perdeu com tanta frequência que deixou bem claro que me perder não faz diferença
Você me perdeu quando contribuiu para que eu me perdesse
Me perdeu porque me perdi sem que você percebesse
Você me perdeu tão junto comigo que nem consigo te ter como inimigo
Você me perdeu tentando se achar
Você se perdeu achando que não podia tentar
Você me perdeu no dia em que eu, perdido, me convenci de que já não haveria um dia de sol para mim
Você me perdeu quando eu me perdi
(MACHADO. Marco)

Expiação

Eu caí na minha armadilha
Agora a morte me persegue, me alcança e brinca comigo
Um passo infalso, o teu rosto na noite e todas as escolhas erradas pareceram a melhor solução, a única saída com a porta aberta pro abismo
Eu não soube lidar com teus olhos e acabei por provar o sabor do meu inferno num banheiro sujo, com pessoas sujas que conheci depois de abrir mão da racionalidade e procurar a insanidade pra amenizar a dor da outra realidade
Onde estaria você enquanto eu descia o mais fundo possível passando pelas frestas malformadas da minha moral debilitada?
Porquê ainda acredito que um sorriso seria o alívio cômico do meu drama sem razão? Logo eu que amava a filosofia, a traía com a insensatez, casos obscenos que usei como meu remédio ineficaz preferido
Hoje até meu cheiro me causa repulsa, me sinto capaz de estar junto de tudo o que sempre desprezo discursando o amor
Eu nunca fugi do debate, não como hoje corro do espelho, não como hoje fujo das marcas do passado como um cão assustado
Abalado, abatido, abestado, oprimido por mim, ainda há de nascer um tirano mais cruel do que eu
Flores pro mal, para mim apenas punhos de ferro, comida insalubre e uma cela fria e solitária nos confins do absurdo, onde lhe nego até mesmo ser visitado pela empatia, minha melhor amiga. Construindo um império de medo, rancor, ódio e mentiras, enquanto isso faço das tripas um coração afim fazer pelos desconhecidos o que jamais faria por mim, punições sem fim enquanto durar a existência. O maior dos tiranos, sim, esse sou eu, flertando com o autoflagelo, um tormento imortal ainda é pouco para expiar todos os crimes por mim cometidos
Mas o maior dos problemas, de fato, é que nunca soube qual foi o meu crime.
(MACHADO. Marco)

segunda-feira, 4 de abril de 2022

o Que preferia não ser

Eu queria ser tão frio quanto aquelas com quem prefere se relacionar
Aquelas que preferem te virar as costas quando tua fala não condiz com teus atos
Não queria ser aquele que entende o teu conflito e se compadece
Por quê eu não sou mais nada pra você, mas ainda choro sozinho por não poder secar tuas lágrimas e nem poder curar tuas feridas
Você é o elo que ainda liga meu espírito à uma tola esperança de ver beleza num mundo morto
Eu sei que preciso te matar dentro de mim para que eu possa renascer aquele guerreiro flagelado que luta guerras sem razão
Por isso mesmo ainda me apego fortemente ao teu sorriso
Ao brilho do sol nas curvas da tua pele
Ao perfume balsâmico dos pêlos no seu corpo
Mesmo ainda tão tarde na regressão da vida
Ainda desesperado eu insisto que a beleza é real e não apenas um devaneio de conto de fadas
O motivo eu desconheço, mas sei que tem a ver com os seus olhos que penetram o inconsciente da minha alma e desperta um turbilhão que se impõe em minha vontade de ser atraído pra você como forças gravitacionais
Mesmo essas palavras
Mesmo o arco iris
E nem mesmo Homero seria o suficiente para preencher o significado do seu existir
Qualquer traço ou qualquer linha de ciência que explique a origem do universo seria apenas um livro bobo perto do valor do seu sorriso
Eu não queria ser tão seu
Até porque nunca serei
Mas não tenho como enfrentar o meu algoz
Sendo ele também meu salvador
Visto tudo e me deixo ser tua passarela
Onde caminha e pisoteia para ser agrado delas
Elas que te matam dia após dia e me condenam à tortura eterna do teu sadismo
Ainda que eu corra pra floresta
Me esconda entre as montanhas
Ou me tranque em um calabouço
A tortura maior é conviver com teu desprezo
A angústia final de fazer me matar para que sintamos como é estar vivo
Estar vivo sem você é como ser uma árvore sem raiz
Um satélite que nada orbita
E assim não faz o menor sentido
(MACHADO. Marco)

sábado, 2 de abril de 2022

É só isso

Então é isso?
Tenho que aceitar o que foi?
Acreditar que só eu vi o houve entre nós?
Que seus olhares e frases com idéias subentendidas foram nada além da minha imaginação?
Eu criei então um motivo para morrer
De graça sem a sua ajuda?
Nada realmente existiu quando seus olhos entravam em mim como você nunca entrou?
Agora eu levo comigo a mágoa e uma dor de pensar que fui um monstro nessa história
Não tenho tanto tempo para tentar pensar como teria sido se eu não tivesse me enganado
Ainda produzo sorrisos ao pensar como seria ter te amado
Mas hoje só te vejo pelas costas enquanto caminha pra longe do meu lado
Levando no bolso a minha paz e o meu talento de fazer o mundo sorrir
Falar de amor continua difícil nas ruas do ódio
E no final eu ainda não acredito que não sente mais nada
Mesmo sabendo que faz parte do mundo que vê em mim uma piada
Depois do fim fiquei com as letras e poesias sem rima
E a difícil missão de recontruir minha autoestima
(MACHADO. Marco)