Antes de tudo eu sou
Depois de tudo que sei
Sabendo o que posso ser
Sem saber se um dia serei
Se fosse tão fácil saber
Seria tão triste sonhar
Eu saberia que sou
Tudo o que não quero me tornar
Mas eu não sei
Não sei o que deveria saber
Nem sei o que quero fazer
Não sei como dizer
Nem mesmo se quero saber
Só sei que sabendo o que sei
Sinto saudade do não
Sinto saudade do ter
Não sinto saudade de mim
Tanto quanto sinto de você
(MACHADO. Marco)
Jogral Sem Identidade
segunda-feira, 30 de setembro de 2019
Só sei o que sei
Meu Broto
Em 1976 meu broto nascia. Lindo e tenro como um broto geralmente se apresenta ao mundo.
Em 1980 meu broto crescia. Lindo e forte como brotos de raízes bem nascidas
Em 1988 meu broto ja começava a florescer, dando ao mundo um brilho muito mais especial.
Em 1994 meu broto já era crescidinho e exalava certa imponência com sua frondosa frente fresca
Em 2000 meu broto me apareceu na frente da sorveteria, foi o começo do nosso grande amor
Em 2001 meu broto me jurava amor eterno, que eu respondia com promessas de que o infinito seria uma piscadela diante da nossa eternidade.
Em 2004 nada era capaz de abalar o nosso amor, eu e meu broto eramos tão felizes...
Mas em 2005 meu broto fugiu de mim numa combi colorida, cheia de brotos tão cheirosos quanto ela.
Meu broto havia achado alguém melhor para regar-lhe o coração, mais jovem e mais solto e com tranças de conquistar qualquer broto infeliz.
A combi subiu a serra ainda em 2005, levou meu broto e tantos outros, e eu fiquei aqui, vivendo entre as folhas secas e a terra morta, o meu jardim morreu comigo no dia em que meu broto me deixou.
(MACHADO. Marco)
sexta-feira, 6 de setembro de 2019
Pintura Incolor
Eu trouxe pelo caminho
Cigarros e goles de vinho
Saudades e desilusões
Andando a esmo sozinho
Eu vi nas ruas e nos barracões
Vontades e procrastinações
Fazendo a fila pro pão
Querendo quebrar os grilhões
"E que tudo mais vá pro inferno"
Me disse na lua do inverno
Não sentiu nem o mormaço
Da chama do fogo eterno
Quando lá eu estive a viver
No embraço daquele querer
Eu chamei pelo nada de hoje
Que hoje eu fujo de ter
E você? E você?
E hoje no abismo soterrador
Do frio, da apatia e da dor
Espero pela primavera
Da morte a distância do amor
(MACHADO. Marco)