Jogral Sem Identidade

Jogral Sem Identidade

sábado, 3 de setembro de 2022

Tarde Vazia

Pela janela do meu quarto escuro eu vejo entrar a luz do sol, tão clara, pura e mesquinha, sem se importar com a dor que sinto ela entra, me banha na solidão do parapeito, me tira o conforto que só encontro perdido na noite que sempre espero ser eterna. Ainda assim não consigo ver senão beleza na tarde vazia que me rodeia, querendo dizer ao mundo que há sim motivos para felicitar, embora estejam além do meu horizonte, ou nem tanto. A copa das árvores balançando suavemente na brisa quase inexistente desses morros queimados soam quase como a memória da vida de alguém que já fui, antes de tantas outras subidas e descidas, atrás de montes tão distantes quanto meus próprios pensamentos.
Longínquo é o reino de onde remeto aos meus amores, trazidos pelo vento numa tentativa de me sentir vivo. Trouxera também um pouco do teu perfume que me atravessa o terceiro olho quando elevo meu espírito, parece que foi ontem que vi o teu sorriso tão próximo que eu poderia dizer a marca do teu creme dental, mas não parece tão recente, nem ao menos parece está vida, senão a de outro alguém, alguém que eu já fui e que jamais poderia ser, assim como nunca fui dele, nem ao menos meu.
A luz do sol brilhou incandescente sobre a minha pele, eu senti queimar, agora eu sinto o acalento de saber, que nada foi para ficar, agora eu vejo uma história se desenrolar, a qual eu escrevo em linhas confusas pra denunciar minha insanidade, os amores do passado se mostraram novamente, afinal de contas tudo é parte desse jogo, o amor não ficou pra trás em momento algum, mudou apenas de endereço pra que pudesse permanecer aqui por perto, mas quanto tempo eu levei pra o reconhecer? Sinceramente, ainda é parte do que não conheço, se é que um dia o conheci. Mas sei agora, vendo o sol se despedir de mim mais uma vez, que minha turva visão de sofredor me impediu de nota-lo antes, e agora me esforço para não permitir que a brisa fresca passe sem deixar notas da fragrância que sei que vou encontrar no teu pescoço.
(MACHADO. Marco)

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