Jogral Sem Identidade

Jogral Sem Identidade

sexta-feira, 20 de outubro de 2023

Oásis

Ó magnânimo poeta
Que zela pelo meu coração no entardecer da noite
Enquanto talha com facas afiadíssimas a história de minha morte
Contando a todos com palavras soberbas
Como amei a projeção de minha própria mente
Como ardi em chamas lascivas no labirinto das paixões crueis que nos atravessam a existência
Recusando-me a dar-me por vencido num jogo que nem ao menos haveria começado
Diga-lhes pois então dançante deflagrador
Como poderia continuar a querer-te em tão ardilosa cobiça
Se o que amei, amei em mim mesmo?
Ora veja os infortúnios dos desafortunados
Tudo se volta ao reconhecimento de si próprio nesse grande quebra-cabeças
De tanto ódio do que vi, acabei por amar a mim mesmo
Reconhecendo nos escombros das socializações
Meus próprios pedidos de socorro
Aquelas mesmas miragens no deserto de minha própria solidão, oásis.
Não havia nada ali senão o que meu próprio coração, corpo, mente, alma e espírito se uniram para projetar
Como posso eu então, na luxuriosa luminescência permitir-me incomodar-te com devaneios sobre um ser desconhecido a ti e a mim
Diga-me pois, Desconhecido, como poderia eu?
Não sei quem és, que te devo então além de respeito e minha ordinária porta de entrada para que me atravesses se assim o desejar?
Mas se o fizer adentre com respeito, eu lhe informo que farei o mesmo como bom anfitrião
És, como todos que utilizam as formalidades da boa vizinhança, bem vindo ao lar que somos
Porém devo-lhe informar que há na governança deste belo templo uma nova gestão que acaba de terminar uma bela de uma limpeza na estrutura que lhe recebe
E não serão tolerados vandalismos de qualquer espécie
Pois que é passado o tempo de imperceptíveis consequências nos intencionados malfazejos
Nada há que te prenda sob arreios ou amarras
Tão livre és para ir quanto para ficar
Mas se traz para mim perturbações na superfície vítrea do lago onde repousa minha alma
É melhor que traga em teus braços a refeição do nosso piquenique
Do contrário é melhor que te retires
(MACHADO. Marco)

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